Estudo ignora fundadoras de startup no RN e empresárias reagem


Nos últimos dias, o segmento de startups do Rio Grande do Norte esteve envolvido em uma problemática bem pertinente: provar que existem sim mulheres fundadoras de empresas de inovação no estado.

Essa parece uma constatação óbvia, mas no Sul e Sudeste têm empresas de renome que não só desconhecem que há mulheres empreendedoras no ramo de startups no RN, como também não fazem muita questão de ir atrás de conhecer.

Daí a surpresa – e indignação – do segmento local quando um mapeamento nacional colocou o RN como um dos oito estados do Brasil onde não existem startups fundadas por mulheres.

O levantamento é o “Female Founders Report 2021”, um estudo inédito com objetivo de apresentar dados e análises sobre o ecossistema de empreendedorismo feminino no país, com foco nas startups fundadas e co-fundadas por mulheres em diversos estágios.

A realização foi do Distrito em parceria com Endeavor e B2Mamy, todas empresas muito bem posicionadas no segmento de empreendedorismo e inovação.

Os estudos do Distrito são influentes, ajudam na tomada de decisão de fundos de investimento, corporações de fomento, aceleradoras, inclusive servem de base para políticas públicas para o setor.

Por isso a preocupação da comunidade potiguar com o dado divulgado, pois ao apontar uma suposta inexistência de startups de mulheres, investidores poderiam vir a ter menos interesse no estado, prejudicando um trabalho de anos de toda a cadeia produtiva.

O documento foi publicado no dia 8 de março, e ganhou grande repercussão já um dia antes, quando foi base para uma grande reportagem no Fantástico sobre mulheres empreendedoras no campo da inovação.

Os estados que, segundo a pesquisa, não apresentaram empresas com mulheres entre os fundadores são Mato Grosso do Sul, Acre, Amapá, Tocantins, Alagoas, Piauí, Sergipe e Rio Grande do Norte.

Diante da informação, comunidades de startups dos estados citados se manifestaram cobrando uma retratação das empresas realizadoras da pesquisa. Afinal, “não é porque você não conhece que não existe”, como bem disse uma comunidade de Alagoas.

No Rio Grande do Norte, a Jerimum Valley – comunidade com mais de 900 membros de todo o estado (entre homens e mulheres e não necessariamente empreendedores, mas atuantes ou interessados no ramo da inovação) – foi a primeira a emitir nota contrária à pesquisa.

O Distrito entrou em contato para dar um esclarecimento: “Compartilhamos da preocupação quanto ao mapeamento de startups sediadas em determinados estados, porém, [a pesquisa] não indica a inexistência de startups nas regiões apontadas, mas sim que não foi possível no momento da pesquisa mapear tais empresas”.

Ainda segundo a empresa, alguns fatores implicam ou não na entrada da startup na base de análise. São eles: 1) demonstrar atividade (CNPJ, sites, redes sociais); 2) enquadrar-se na definição de startup utilizada pelo Distrito; 3) ter em seu quadro de funcionários (Site/Linkedin) mulheres identificadas como “Founder” e/ou ter se identificado como solução fundada por mulher em pesquisa realizada junto às empreendedoras do Brasil (01/12/2020 – 28/02/2021).

Ao citar os critérios, mulheres fundadoras de startups no RN se pronunciaram indignadas com o levantamento, porque viram que suas empresas se enquadram nos aspectos da pesquisa e mesmo assim ficaram de fora.

A situação complicou para o Distrito. A empresa então combinou uma reunião virtual com 35 líderes e empreendedores do Norte e Nordeste. Na ocasião, esses líderes argumentaram sobre os perigos de um mapeamento tão abrangente e complexo, e com tamanha divulgação, mas sem critérios sólidos de investigação.

Não tendo mais como contra-argumentar, o Distrito recuou com a pesquisa, reconhecendo imprecisões no estudo, pedindo desculpas pelos transtornos causados e tomando medidas para corrigir o problema.  

Toda essa história é importante de contar porque mostra o engajamento e a força que as mulheres empreendedoras do segmento de startups do RN (especificamente), e do Norte e Nordeste (modo geral), mostraram ter. É um tipo de colaboração que muitas vezes falta em outros segmentos.

Mostra também o quanto elas se sentem responsáveis em defender o ecossistema empreendedor local, combatendo desinformação e lutando por valorização. Que essa articulação possa ser o pontapé para projetos futuros de colaboração e parceria na região.

O Expresso84 conversou com a community manager Monnaliza Medeiros, uma das potiguares que mais se engajou no problema com o levantamento do Distrito. 

Monnaliza tem 22 anos e atua no segmento de startups há pelo menos cinco. Foi líder da comunidade potiguar Jerimum Valley entre 2018 e 2020, nesse período foi duas vezes seguidas eleita top 3 nacional Heroína do Ano pelo Starups Awards – o Oscar das Startups.

Mesmo morando em São Paulo desde o meio do ano passado, quando passou a atuar como community manager da Bossa Nova Investimentos, ela não deixou o RN de lado. Continua colaborando com a Jerimum Valley, agora como conselheira. 

Confira os principais pontos da entrevista:

No RN existem pelo menos 12 startups fundadas por mulheres

O Parque Tecnológico (Metrópole Digital) tem um mapeamento com mais de 230 empresas startups no RN. Mas a gente estima que no estado inteiro existam entre 300 e 400 empresas em diversos níveis de maturidade. Muitas delas podem estar no estágio de ideação, sem CNPJ ainda, fazendo protótipo.

No nível de operação e tração, eu imagino que existam em torno de 50 e 60 startups que já estejam faturando. Dessas, conseguimos mapear pelo menos 12 empresas fundadas por mulheres que estão em um nível de maturidade bom, com vários funcionários. É uma estimativa, mas já serve para dizer que o número no RN não é zero.

Principais falhas na metodologia do Distrito

O Distrito puxou os dados da base própria deles. Isso já revela que eles não tinham recorte regional. Mas também fizeram um levantamento na internet. Só que procurar na internet se há mulheres entre os sócios e fundadores de uma empresa é algo complexo.

A maioria das empresas cadastra no perfil apenas uma única pessoa, geralmente é o CEO. E o índice de mulheres no cargo de CEO é baixo. Muitas vezes a fundadora nem é a CEO, é o CMO, que é direção de marketing, ou às vezes é a responsável pela tecnologia. Então é uma metodologia falha.

Eles também rodaram um formulário. Mas também era falho, porque dependia de divulgação. E como o Distrito é mais forte no Sul e Sudeste, o formulário ficou restrito às bolhas de lá. Quem tem menos proximidade com o Distrito, acabou sem saber do mapeamento, nem chegando a participar, ficando de fora do estudo.

Consequências negativas da pesquisa para os estados

O tipo de negócio do Distrito é se relacionar com grandes empresas e conectar com startups. Eles são referência no Sul e Sudeste, já ganharam premiações como Hub, são uma importante empresa na região, são próximos de fundos de investimento, grandes corporações, aceleradoras de negócios, incubadoras de empresas. Qualquer instituição que fomente startups conhece o Distrito.

E quando eles lançam um relatório, naturalmente os diretores das grandes corporações vão ficar de olho, principalmente aqueles que já tem parceria com o Distrito. E quando esse relatório fala que em 8 estados não têm empresas fundadas por mulheres, isso é perigoso.

Existem muitas iniciativas de investimento segmentado, por exemplo, fundos de investimento só para mulheres. Então os diretores desses fundos vão ver o relatório para poder dar direcionamentos, e não vão nem se dar ao trabalho de procurar naquele estado algo para investir, porque, teoricamente, já foi feito um levantamento e esse levantamento apontou que não existe nada ali.

Erro faz os estados parecerem retrógrados, quando não são

Essa questão também fragiliza os estados e regiões, porque se você não tem mulheres incluídas no meio da inovação, significa que o pensamento daquele estado é retrógrado, que ali não existem agências de fomento atentas para essa causa, que o estado ainda está vivendo muito no século passado.

Você dizer que ainda tem regiões que não se atentaram para essas lutas, é uma acusação muito séria. Parece que é negligência e irresponsabilidade de todo ecossistema daquela região, parece que aqui não se está tentando fomentar. O que não é verdade.

Ter mulheres em todas as áreas é uma luta de grande importância e que vem sendo trabalhada fortemente nos últimos anos. Existem várias iniciativas no Estado para fomentar a inserção e reconhecimento de mulheres no ecossistema das startups.

Por exemplo, já realizamos três edições da Startup Weekend Women. O evento é promovido por uma empresa global com o intuito de fomentar o surgimento de startups fundadas por mulheres. Tivemos médias de 80 participantes por edição. Muitas delas já fundaram startups, ainda que na fase inicial, mas já há resultados.

Êxodo para o Sul e Sudeste

Muitas vezes a evolução do ecossistema de um estado não acompanha o mesmo ritmo nacional. O Norte e Nordeste têm muito esse problema de êxodo, que é quando os talentos locais crescem num nível que não enxergam mais oportunidades no próprio estado.

Em algumas funções dentro do segmento de inovação isso é mais forte. A área de carreira, que é a que eu escolhi, não oferece muitas oportunidades aqui no RN, principalmente no cargo de community manager, que é com o que eu atuo hoje na Bossa Nova Investimentos, em São Paulo.

Eu tive essa oportunidade para crescer, sendo que era preciso sair do estado. Deixei a liderança do Jerimum Valley, mas continuo atuando como voluntária na comunidade. Hoje auxilio no planejamento de eventos, articulo parcerias nacionalmente, fico de olho no que está acontecendo no Sul e Sudeste para passar informações para os líderes locais. Tudo isso é para que a gente no RN consiga acompanhar o que está acontecendo no resto do Brasil.

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